Tuesday, December 17, 2013

032c.


032c Issue 24 - NICOLAS GHESQUIÈRE from 032c on Vimeo.

Foi na livraria da Haus der Photographie em Hamburgo que descobri a 032c, uma revista de moda de Berlim. Entrara com o objectivo de comprar algum souvenir da exposição que acabara de ver, a retrospectiva de Guy Bourdin (link) - e fi-lo - mas a criteriosa selecção de revistas de moda deteve-me por mais alguns minutos. Chamaram-me a atenção duas pilhas de revistas perfeitamente alinhadas. Na capa, um retrato de Nicolas Ghesquière e da sua musa Charlotte Gainsbourg, fazia chamada para um artigo de 40 páginas sobre o criador e o seu percurso de 15 anos à frente da casa Balenciaga. Sobre o artigo, escrito por Pierre-Alexandre de Looz, viria a descobrir após a leitura ser aquilo que gostaria eu mesma de poder escrever. Da entrevista com Ghesquière, seleccionei as passagens que me parecem mais relevantes para partilhar convosco.


Sobre a Balenciaga que encontrou em 1997.
"Estava mais ou menos esquecida. (...) Balenciaga correspondia a arte abstracta, a arquitectura e a uma forma intelectual de moda, de austeridade misturada com qualidade gráfica. Hoje existem exemplos de nomes que foram salvos, mas neste caso o poder da casa passou à frente dos desejos do seu fundador. A marca sobreviveu graças ao licenciamento de perfumes e porque o legado de Balenciaga continua relevante. (...)  Pode ser reinterpretado inúmeras vezes por outros talentos e é, por essa razão, uma espécie de denominador comum, toda a gente tem uma versão da sua obra porque tornou-se parte do inconsciente colectivo."  

Sobre a feminilidade e a mulher Balenciaga.
"A sua feminilidade deve ser inquestionável, mas ao mesmo tempo não deve ser demasiado óbvia. (...) Cristóbal costumava dizer One should deserve a Balenciaga! Eu digo que é preciso ser corajosa para vestir um de manhã. (...) A abordagem da Balenciaga à feminilidade tem uma atitude boyish, confiante, inteligente, uma procura pela qualidade e um vanguardismo no sentido que é preciso ser corajosa o suficiente para ser diferente."

Sobre a Balenciaga que deixou.
"Temo que possa ser vista como uma marca de malas, embora esteja ligado a isso, pois gostaria que permanecesse uma maison de mode. (...) Foi-me dito - e fui muitas vezes criticado por isso - que a Balenciaga pode parecer demasiado avant-garde, talvez até elitista. A minha resposta a isso é, em primeiro lugar, que a marca não merece menos. Se me perguntarem, existe apenas um lugar onde é feita pesquisa e esse lugar é a Balenciaga. Fui também criticado por não ser suficiente comercial, o que tem alguma piada. (...) Espero que as pessoas reconheçam que nos últimos 15 anos fui capaz de estabelecer um equilíbrio entre uma casa respeita os seus valores e evolui em tempo real e um negócio genuíno, bem-sucedido e estável."

"Sinto-me orgulhoso pelo facto de a Balenciaga e eu termos seguido uma linha recta, praticamente desde o início até ao fim, extremamente focada e coerente. Tive muita liberdade. Foi a minha perspectiva sobre Balenciaga e sinto-me muito orgulhoso pelo que hoje a marca é."

Sobre o presente da Moda.
"A Moda nunca esteve tão na moda. (...) A moda nunca esteve tão democratizada, o que é excelente, mas tornou-se também parte da cultura pop. Toda a gente quer ser parte dela, ter um parte dela, parecer interessado nela. (...) Hoje parece ser mais importante ter um bom par de sapatos ou uma carteira. As roupas, por outro lado, podem ser um achado. As grande cadeias têm-se posicionado de modo inacreditável para tornar isto possível, o que vem pôr em causa o estatuto do próprio ready to wear."

Sobre o calendário e timing da Moda.
"É uma das razões pelas quais quis parar. Enquanto o calendário de produção respeitava o lado criativo, parecia humano. Depois acelerou até um ponto em que me sentia totalmente miserável. (...) Quando comecei, existiam apenas duas estações, tínhamos o desfile e algumas peças comerciais extra, mas no final eram 15 colecções por estação, o que dá mais de 30 colecções por ano. Há dias em que sinceramente não sabes em que planeta estás."

Sobre Jean Paul Gaultier com quem estagiou.
"(Jean Paul Gaultier) não estava apenas preocupado em fazer roupas bonitas, porque as suas roupas são extremamente bonitas, bem feitas e de elevada qualidade. (...) Algo que aprendi com ele é que é possível divertirmo-nos com as roupas desde que consigamos fazê-las bonitas. JPG era, por um lado, capaz de criar uma colecção clássica numa estação e na estação seguinte conceber peças fashion-oriented e definidoras de uma estação."

Sobre Azzedine Alaïa por quem nutre forte admiração.
"O conselho de Azzedine é Faz o que queres, quando tu queres. (...) Dá para ver que (ele) não sacrificou nada, que nada escapou ao seu controlo e que criou uma marca que continua a crescer. Mesmo tendo decidido afastar-se por algumas temporadas, penso que nunca vimos tanto as suas roupas. (...) É um perfeito exemplo de autonomia e prezo os seus conselhos."

ph// LX STATE OF FASHION

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